27.2.13

Especial: "O Profeta" (2006)

Para escrever "O Profeta", folhetim calcado no sincretismo religioso, Ivani Ribeiro contou com a assessoria de um mentor espírita, um psiquiatra, um sacerdote católico e um orientador de candomblé. Com essa novela, exibida entre 1977 e 78 na faixa das 20h, a TV Tupi, que já tentava superar a crise financeira que lhe aniquilaria em pouco tempo, conseguiu abiscoitar bons pontos de audiência da Globo, então líder há quase uma década. O público comprou realmente o dramalhão protagonizado por Carlos Augusto Strazzer -- premiado como o melhor ator daquele ano --, atestando novamente o sucesso de uma novela com temática espírita, uma vez que “A Viagem” (1975), da mesma Ivani, também havia dado muito certo.

Em sua bem-sucedida passagem pela Globo, Ivani refez várias de suas novelas, mas não teve a oportunidade de reeditar “O Profeta”. Na verdade, a ideia de um remake dessa obra só surgiu após o seu falecimento. No início dos anos 2000, as autoras Elisabeth Jhin e Angela Carneiro, supervisionadas por Walther Negrão, começaram a esboçar uma nova versão, mas a Globo acabou engavetando-a. Em 2003, a emissora deu sinal verde para que a trama fosse produzida, convocando Ricardo Waddington para dirigir os trabalhos, contudo, não se sabe o motivo, cancelou logo depois. As autoras já tinham até alguns capítulos bonitinhos no papel.

“O Profeta” só veio a ser produzida em 2006 -- para a faixa das 18h --, porém por uma nova dupla de autoras, as estreantes Duca Rachid e Thelma Guedes, supervisionadas e adaprinhadas por Walcyr Carrasco. Como Elisabeth e Angela não foram chamadas para colaborar no texto, certamente essa adaptação começou do zero. Ricardo Waddington também passou longe da realização do remake, que contou com direção geral de Mário Márcio Bandarra e pertenceu ao núcleo de Roberto Talma.

Para começo de conversa, a adaptação transpôs a história, originalmente contemporânea, para a década de 1950. “Os anos 1950 dão um colorido especial à história e aos romances da trama”, explicou a autora Thelma Guedes na época. "É uma época efervescente no Brasil, isso nos dá bastante assunto para explorar", completou Rachid. Assim, como não poderia ser diferente, o elenco foi buscar referências em astros e estrelas hollywoodianas como Marilyn Monroe, Audrey Hepburn e James Dean. A equipe de cenografia, por sua vez, teve que suar a camisa para reproduzir o bairro paulistano da Barra Funda dos anos dourados, onde se desenrola a trama.

A saga mística começa no interior do Rio Grande do Sul. É lá que vive Marcos (Thiago Fragoso), o dono da história, um rapaz que desde criança tem o poder de prever acontecimentos, mas nunca soube compreender realmente seu dom nem evitar os incidentes pressagiados. A sua vida, aliás, muda após uma tragédia que, para ele, poderia ter sido evitada: a morte de seu irmão. Sentindo-se culpado pela fatalidade, Marcos deixa as paisagens idílicas do Sul e parte para São Paulo, onde encontra seu grande amor, Sônia (Paola Oliveira). Doce e romântica, Sônia está noiva de Camilo (Malvino Salvador), que vem a ser primo do vidente e mostra-se um sujeito de caráter duvidoso. Num primeiro momento, Sônia resiste, mas logo se joga nos braços de Marcos, abandonando um casamento certo para mergulhar em um amor que não sabe onde vai dar.

Sônia trabalha como secretária em uma fábrica de cristais (que simboliza o dom da clarividência), propriedade de Clóvis (Dalton Vigh). Este é viúvo, pai de uma menina e tem como principal objetivo conquistar o coração da bela Sônia. Ele tem um caso secreto com Ruth (Carol Castro), uma jovem fútil e ambiciosa que se vê apaixonada pelo simples e bondoso Marcos. Ao se envolver com ela, o paranormal acaba por corromper-se, uma vez que Ruth enxerga em seu dom uma maneira de fazer fortuna. É aí que o mocinho se depara com uma grande dúvida: sua verdadeira missão é utilizar seu poder sobrenatural em benefício próprio ou para ajudar o próximo?

Antes de pender para o lado negro da força, Marcos conhece a professora Carola (Fernanda Souza), que se torna uma grande amiga, mas na verdade está apaixonada por ele. Gordinha e desajeitada, ela é uma decepção para a mãe, a vaidosa Lia (Nívea Maria), e a irmã, Ruth, todavia forma uma dupla perfeita com o desajeitado Arnaldo (Rodrigo Phavanello).

Enquanto Marcos ganha dinheiro com seus poderes na televisão, Sônia, desiludida com o amor, casa-se com Clóvis, que logo se mostra um homem perverso – capaz de ter matado a primeira mulher. Sabendo que Sônia ainda ama Marcos, o empresário trata de mantê-la enclausurada no sótão de sua mansão, submetendo-a a ameaças e torturas constantes.

Para contrabalançar o melodrama, Duca Rachid e Thelma Guedes criaram um núcleo de humor que não existia na versão original de Ivani Ribeiro. Nele, estavam inseridos o peixeiro Tainha (Rodrigo Faro, em sua última novela na Globo), um sujeito ignorante mas bonito e de bom caráter; a falsa cartomante Rúbia (Rosy Campos), um contraponto ao dom do protagonista; além do pão-duro Alceu (Nuno Leal Maia) e sua esposa Miriam (Juliana Baroni), uma jovem exuberante que adora jogar charme para os fregueses da lanchonete do marido. No meio desse refresco todo, há ainda outro romance: o vivido por Baby (Juliana Didone) e Tony (Daniel Ávila), invejado pela melhor amiga da moça, Wanda (Samara Felippo), e proibido por sua mãe, Ester (Vera Zimmermann).

“O Profeta” deu certo, desde o primeiro capítulo. Ao fechar com média acima do que a Globo exigia para o horário das 18h, a novela reafirmou o infalível poder de Ivani (embora esta versão não tenha sido propriamente um remake, haja vista as inúmeras alterações no enredo) e provou mais uma vez que o público tem uma queda por histórias recheadas de misticismo. Não por acaso as novelas das 19h e 21h, “Cobras & Lagartos” e “Páginas da Vida”, também ganharam os seus fantasminhas.

No que se refere à produção, “O Profeta” deixou a desejar na escalação do elenco, que se mostrou irregular. Thiago Fragoso foi bastante criticado, enquanto Paola Oliveira, recém-lancada na TV, alternou bons e maus momentos. Carol Castro, por sua vez, surpreendeu como vilã. Já Dalton Vigh teve o seu melhor momento na telinha desde “O Clone” (2001) e ganhou status dentro da Globo. No fim das contas, a novela chamou a atenção pela produção esmerada, e recebeu selo de garantia para um “Vale a Pena Ver de Novo”.


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